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Paiva Netto| Segunda-feira - 10.05.2010 // Comente

Hipácia, mãe de filósofos

Nada mais potente que o coração materno. Em homenagem ao Dia das Mães, presto modesto tributo a elas por meio de uma pioneira mulher na matemática, na astronomia e ícone da filosofia na Antiguidade. Na História Eclesiástica, escrita no século 5o pelo historiador Sócrates, o Escolástico (não confundi-lo com outro Sócrates, príncipe dos filósofos), encontramos este importante registro: "Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipácia (aproximadamente 355-415 AD), filha do matemático, astrônomo e diretor do Museu de Alexandria, Teón (335-395), que fez tantas realizações em literatura e ciência, que ultrapassou todos os filósofos da época. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia a quem ouvisse, e muitos vinham de longe receber os ensinamentos".
Segundo pesquisadores, Hipácia era uma mulher de beleza singular. O ano do seu nascimento é controverso. O mais aceito é 355, e há os que citam 370. Apesar de pagã, tinha entre os alunos vários cristãos, demonstrando, desse modo, espírito ecumênico. Por sinal, é por intermédio de um deles, Sinésio de Cirene (370-413), futuro bispo de Ptolemaida, que possuímos hoje registros mais fidedignos a respeito da única mulher a dirigir o Museu de Alexandria. Em um dos seus escritos refere-se a ela como "minha mãe, minha irmã, mestre e benfeitora minha".
Numa época em que a intelectualidade feminina não era reconhecida, as teses de Hipácia influenciaram muitos poderosos. Suas palestras não ficavam apenas no âmbito filosófico, pois era procurada também a fim de opinar sobre assuntos políticos e da comunidade.
Em ambiente de forte intolerância religiosa, Hipácia começou a incomodar. No ano de 415, acusada de praticar magia negra, foi arrastada pela turba ensandecida até a igreja de Cesarión. A brutalidade usada para tirar-lhe a vida provocaria espanto aos mais terríveis carrascos de todos os tempos. Considerada mártir da ciência, muitos apontam o fato como marco inicial da Idade das Trevas.
A professora de Letras Clássicas da UERJ e coordenadora do grupo de estudos Farol de Alexandria, Fernanda Lemos de Lima, apresenta esta definição esclarecedora: "A figura da mulher-filósofa (...) merece ser lembrada não para falar de uma regra de liberdade feminina na sociedade alexandrina antes do período bizantino, mas, sim, para fazer com que se possa refletir como houve um crescimento considerável do campo de atuação do feminino nesse mundo pagão alexandrino, que encontra seu ocaso simbólico no assassinato de Hipácia, sophia da ágora alexandrina".
Ascética e celibatária, Hipácia não deixou herdeiros, mas, como reiterei em 1987, há muitas formas sublimes de ser Mãe, inclusive dar à luz grandes realizações em prol da Humanidade. Foi o caso de Hipácia. Sua dedicação às questões metafísicas gerou filhos a perpetuar nas mentes a constante necessidade de buscar respostas às indagações que sempre nos afligiram: De onde viemos, por que vivemos e para onde voltaremos um dia, após a "morte"?
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