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Impressão Digital| Sábado - 06.02.2010 // Comente

Por Daiana Franco

Coisas que irritam

Há quem diga que a irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do nosso peito - um aviso dramático de que o caldo entornou.
Há certas coisas que me irritam profundamente, mas curiosamente suspeito que não incomodem tanto assim as demais pessoas. Arriscando parecer meio maluca, listo aqui algumas delas: odeio que falem errado o meu nome; perco a linha quando estacionam na entrada da garagem do lugar onde costumo deixar meu carro durante o dia (e telefono sempre para chamar o guincho público); ronco me tira do sério; detesto repetir mais do que duas vezes a mesma coisa; volume de televisão alto demais termina com meu bom humor; não dormir 6 horas contínuas à noite me azeda na manhã seguinte; atrasos injustificados me deixam doente; subo nas tamancas quando tentam me enrolar ou quando me sinto injustiçada. Isso tudo é ou não é normal?
A verdade mesmo é que, de perto, ninguém é normal. Basta um pouquinho mais de convívio para a gente perceber as manias e neuroses dos outros, sem esquecer, lógico, das nossas. Dizem, ainda, que os motivos que nos atraem para certas pessoas são justamente aqueles que, anos mais tarde, vão nos irritar loucamente e desejar sumir do mapa. Por isso, o que um dia foi engraçadinho se torna insuportável, gente que achávamos extravagante passa a ser brega, pessoas antigamente simpáticas se tornam grudentas, e por aí vai.
Quando eu era adolescente, achava o fim do mundo quando algum amigo ou conhecido dos meus pais se saía com a velha e batida exclamação do quanto eu já estava mocinha e havia crescido (no sentido conotativo, que fique claro, já que não tenho ilusões quanto a minha altura...!). "Estar uma mocinha" é uma constatação tão óbvia, mas ao mesmo tempo tão embaraçosa, que devia ser uma frase banida do universo teen. A diferença é que naquela época eu não me dava o trabalho de disfarçar toda a minha raiva com aquele tipo de escrutínio físico tão invasivo: achava que tinha que ser explícita na minha cólera para me fazer respeitar. A espontaneidade das reações realmente é algo que vai diminuindo à medida em que envelhecemos e assumimos o compromisso de sermos maduros e de termos traquejo social. A gurizada não faz muita questão de dissimular seu mal-estar; no máximo, sorri amarelo, debaixo de cutucões dos pais.
Há quem diga que a irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do nosso peito - um aviso dramático de que o caldo entornou. Os grandes problemas da raiva, no entanto, são que (1) dificilmente quem nos provoca percebe ou se importa com a irritação que estamos sentindo; (2) quem nos irrita nos domina, e perder o controle da situação não é um comportamento a se aprovar em nós mesmos.
Bem dizia o velho Quintana - ele, de novo, presente em meus pensamentos: "Não te irrites, por mais que te fizerem... Estuda, a frio, o coração alheio. Farás, assim, do mal que eles te querem teu mais amável e sutil recreio..."
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